Investigações já apontam envolvimento de outras instituições financeiras, ministros, seus familiares e figuras políticas ainda não nomeadas
O colapso do Banco Master deixou de ser, há algum tempo, um episódio restrito à insolvência de uma instituição financeira. O que se desenha, a partir do encadeamento de decisões regulatórias, investigações criminais e impactos econômicos, é um caso de dimensão sistêmica, com potencial de redefinir parâmetros de fiscalização, responsabilidade e governança no sistema financeiro brasileiro.
Desde a primeira semana de 2026, a sucessão de fatos — liquidações extrajudiciais, operações policiais, bloqueios patrimoniais e a ativação recorde do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — reforçou a percepção de que o problema não se limitava ao Banco Master em si, mas envolvia um conglomerado de estruturas interligadas, algumas delas utilizadas para sustentar operações irregulares e ocultar fluxos financeiros.
Liquidações em cascata e o avanço do regulador
Desde novembro de 2025, o Banco Central do Brasil vem decretando a liquidação extrajudicial de instituições ligadas direta ou indiretamente ao grupo Master. A crise aumentou ainda mais dia 15/01, com a liquidação da Reag Investimentos — rebatizada como CBSF DTVM — e, dias depois, da Will Financeira (Will Bank).
As decisões do regulador seguem um padrão: à medida que novas informações emergem, revelando fragilidades operacionais, riscos de solvência ou indícios de irregularidades, o Banco Central avança sobre elos adicionais da estrutura. A liquidação da Reag foi justificada por graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional, enquanto a da Will Financeira ocorreu após a interrupção de serviços essenciais, como o processamento de cartões, em razão do descumprimento de obrigações financeiras.
Com isso, sobe para pelo menos seis o número de instituições vinculadas ao conglomerado Master liquidadas em poucos meses, sinalizando que o problema não era pontual, mas estrutural.
Investigação criminal e a entrada definitiva do STF
Paralelamente à atuação administrativa do Banco Central, a esfera criminal avançou de forma significativa. A Polícia Federal intensificou a chamada Operação Compliance Zero, cumprindo dezenas de mandados de busca e apreensão em diferentes estados, com foco em ex-executivos, empresas e intermediários ligados ao caso.
A investigação tramita sob a jurisdição do Supremo Tribunal Federal, o que indica a presença de elementos considerados sensíveis pelas autoridades. A decisão de encaminhar o material apreendido à Procuradoria-Geral da República marca uma inflexão importante: o inquérito deixa a fase predominantemente exploratória e passa a ser analisado sob a ótica de eventual responsabilização penal.
Outro ponto relevante foi a autorização judicial para o bloqueio de ativos de terceiros apontados como possíveis beneficiários indiretos das operações investigadas. Ainda que haja negativa pública de vínculos societários formais, a medida indica que os investigadores buscam alcançar não apenas gestores visíveis, mas também eventuais sócios ocultos ou financiadores do esquema.
O papel do FGC e o custo coletivo do colapso
A dimensão financeira do caso se tornou ainda mais evidente com a ativação do Fundo Garantidor de Créditos. Estimativas apontam que o volume de recursos envolvidos pode chegar a dezenas de bilhões de reais, configurando a maior intervenção da história do fundo.
O FGC cumpre, nesse contexto, sua função primordial: preservar a confiança no sistema bancário e evitar um efeito dominó entre instituições, especialmente no segmento de bancos médios. No entanto, o episódio também reacende o debate sobre o custo coletivo de falhas privadas, uma vez que o fundo é sustentado pelo próprio sistema financeiro.
Analistas observam que, embora o mecanismo evite uma crise imediata de confiança, ele não elimina os impactos de médio e longo prazo, como maior aversão ao risco, encarecimento do crédito e revisão de critérios de supervisão.
Lacunas, silêncios e pontos ainda sem resposta
Apesar do volume crescente de informações, o caso Banco Master ainda apresenta zonas de sombra relevantes. Entre os principais pontos em aberto estão a identificação precisa dos beneficiários finais das estruturas investigadas, o tempo durante o qual as irregularidades teriam operado sem intervenção e os limites entre falha regulatória, omissão e complexidade operacional. Os ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e seus familiares são alguns do envolvidos já identificados.
Também permanece a expectativa sobre até que ponto o caso revelará fragilidades sistêmicas mais amplas, capazes de exigir mudanças regulatórias ou institucionais. A própria duração estimada da investigação — que pode se estender por meses — indica que novos desdobramentos ainda devem surgir.
Um caso em construção
O que começou como a quebra de um banco se transformou em um dos episódios mais complexos do sistema financeiro recente. Com múltiplas frentes de apuração, impacto econômico relevante e repercussão nacional e internacional, o caso Banco Master tende a se consolidar como um marco — seja pelas responsabilidades que venham a ser atribuídas, seja pelas lições institucionais que deixará.
Por ora, o cenário é de acompanhamento permanente. Cada nova decisão regulatória ou judicial acrescenta uma camada a um caso que ainda está longe de seu desfecho.



