Por décadas, Itu construiu uma identidade própria no interior paulista
Histórica, simbólica e orgulhosa de suas raízes, a cidade preserva um estilo de vida que muitos definem como provinciano — no sentido mais literal do termo: ritmo mais lento, forte vínculo comunitário, centralidade da história e pouca disposição para rupturas bruscas. Esse traço, que para uns é virtude, para outros se tornou sinônimo de estagnação.
A questão central é compreender se Itu não cresce porque não pode, não cresce porque não consegue ou não cresce porque escolheu não crescer.
Fundada no início do século XVII, Itu foi protagonista em momentos decisivos da história paulista e brasileira. Diferentemente de cidades que se reinventaram a partir da industrialização pesada ou da economia do conhecimento, Itu permaneceu ancorada em sua herança cultural, arquitetônica e simbólica.
O centro histórico preservado, as tradições religiosas, os eventos culturais e a própria narrativa da “Cidade dos Exageros” não são apenas atrativos turísticos — são expressões de uma cidade que valoriza o passado como ativo estratégico. Isso ajuda a explicar por que o crescimento urbano sempre ocorreu de forma gradual, sem grandes saltos demográficos ou expansões desordenadas.
A dicotomia entre a cultura histórica e o desenvolvimento
O estilo provinciano de Itu se manifesta em diversos aspectos do cotidiano, como as relações sociais mais próximas e menos impessoais, aquele ar de interior e mais seguro, o comércio tradicional ainda forte no centro urbano, vida cultural baseada em eventos artísticos e históricos.
Esse modelo favorece qualidade de vida, previsibilidade e estabilidade, mas cobra um preço quando o assunto é competitividade regional. Em um cenário em que cidades disputam empresas, investimentos e talentos, Itu muitas vezes parece operar em outra lógica — menos agressiva, menos propositiva e, por vezes, excessivamente cautelosa. Tem forte resistência, explícita e/ou implícita às transformações industriais, tecnológicas, desenvolvimento empresarial, entre outros segmentos.
Acelerado crescimento regional
Sorocaba, por exemplo, se consolidou como polo industrial, logístico e universitário, com expansão urbana acelerada e atração constante de investimentos.
Indaiatuba apostou em planejamento urbano, qualidade de vida associada à indústria e forte política de atração empresarial.
Jundiaí se posicionou como centro logístico e tecnológico, aproveitando a proximidade com a capital e infraestrutura robusta.
Enquanto essas cidades cresceram com base em estratégias claras de desenvolvimento, Itu permaneceu em um meio-termo: próxima o suficiente para sentir a concorrência, distante o bastante para não se beneficiar plenamente do dinamismo regional.
Itu é chamada por muitos como ‘Cidade Dormitório‘.
*Rafael Ramires



