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Pesquisa eleitoral não é previsão de resultado

As análises realizadas pelos institutos medem as intenções de voto de determinado momento. Ao longo da corrida eleitoral os gráficos sofrem muitas alterações

Por trás de um percentual divulgado nos telejornais, nos sites de notícias ou nas redes sociais existe uma complexa operação estatística, metodológica e jurídica. Entender como uma pesquisa eleitoral é feita é fundamental para saber o que seus números realmente significam, e também, o que eles não podem dizer.

Quando um instituto divulga que determinado candidato tem 40% das intenções de voto e outro aparece com 35%, a reação mais comum do eleitor é olhar para os números e imediatamente estabelecer quem está na frente e quem está atrás. Mas uma pesquisa eleitoral é muito mais do que uma tabela de percentuais.

Antes de chegar ao resultado publicado, existe uma sequência de decisões:

– Quem será entrevistado;
– Quantas pessoas participarão da pesquisa;
– Onde elas estão;
– Quais perguntas serão feitas;
– Como as respostas serão tratadas e ponderadas e;
– Como os resultados serão apresentados ao público.

E há ainda uma questão fundamental: Quem contratou a pesquisa?

Isso não significa afirmar que o contratante possa determinar o resultado. Uma conclusão dessa natureza exigiria evidências concretas. Mas conhecer o contratante, o método utilizado e as perguntas feitas permite ao eleitor compreender melhor a pesquisa (aprofundaremos esses quesitos em outra matéria).

Pesquisa eleitoral não é previsão do resultado

A primeira diferença que precisa ser compreendida é entre medição de intenção de voto e previsão eleitoral.

Uma pesquisa procura retratar as preferências do eleitorado em determinado momento. Se as entrevistas foram realizadas entre os dias 20 e 23 de agosto, por exemplo, o resultado representa aquilo que os entrevistados declararam naquele período. A eleição, entretanto, ocorrerá posteriormente, com cenários diferentes.

Entre um momento e outro podem acontecer debates, mudanças de alianças, fatos políticos, crises, declarações de candidatos, campanhas publicitárias e mudanças na própria decisão do eleitor. Por isso, uma pesquisa deve ser entendida como uma espécie de fotografia de um determinado momento, e não como uma garantia do resultado das urnas. Quanto mais distante a pesquisa estiver da eleição, maior pode ser a possibilidade de que o cenário político se modifique.

Como as pesquisas são feitas

O processo começa pela definição do universo que será estudado.

Em uma pesquisa presidencial, por exemplo, o instituto precisa estabelecer quais eleitores pretende representar. A partir daí são definidas características importantes da população que deverão estar refletidas na amostra.

Entram nesse planejamento variáveis como região geográfica, idade, sexo, escolaridade e outros critérios utilizados de acordo com a metodologia adotada. O passo seguinte é definir a amostra. É nesse ponto que surge uma das características mais interessantes das pesquisas de opinião:

Não é necessário entrevistar todos os eleitores para obter uma estimativa sobre o comportamento do eleitorado. Uma amostra estatisticamente construída pode representar uma população muito maior. Por isso, uma pesquisa nacional pode entrevistar alguns milhares de pessoas e, ainda assim, produzir estimativas para um universo de milhões de eleitores. Mas é relevante lembrar, o tamanho da amostra, sozinho, não garante a qualidade da pesquisa.

O tamanho da amostra

A quantidade de pessoas entrevistadas, inicialmente, parece fazer diferença, porém há questões a serem avaliadas.

Por exemplo: Uma pesquisa eleitoral questiona 2 mil pessoas e outra 5 mil. De imediato, pode-se concluir que a segunda é mais confiável, mas não é concreta. É preciso saber como essas pessoas foram escolhidas, quem respondeu, qual foi a metodologia e como os dados foram tratados posteriormente.

Uma amostra maior pode reduzir a incerteza estatística associada à amostragem, mas não uma amostra mal construída ou outros problemas metodológicos. Essa é uma das razões pelas quais a margem de erro não deve ser interpretada como um certificado de qualidade.

O eleitor entrevistado pode fazer diferença

Outra questão pouco percebida pelo público é que os entrevistados não aparecem simplesmente por acaso em uma planilha. Os institutos precisam construir uma amostra que procure representar determinadas características da população estudada.

Se uma determinada parcela da população estiver sub-representada ou super-representada na coleta, podem ser aplicados procedimentos estatísticos de ponderação, chamado Peso Estatístico. Por meio dele, determinadas respostas podem ter peso maior ou menor no cálculo final para que a amostra corresponda às características definidas para o universo pesquisado. É uma operação comum em pesquisas de opinião.

Mas também é um dos motivos pelos quais a transparência metodológica é tão importante. Os eleitores precisam ter condições de saber quem foi entrevistado e como os dados foram tratados.

A pergunta também pode interferir na resposta

Existe outro componente que merece atenção: A maneira como a pergunta é feita

Existem diversas formas de se fazer uma mesma pergunta. Veja o exemplo abaixo

Em quem você pretende votar para presidente?
Se a eleição fosse hoje, em qual candidato você votaria?
Entre os candidatos A, B, C, qual deles votaria no 1º turno? E no 2º?

Outras abordagens podem incluir uma lista apresentada ao entrevistado, a ordem dos nomes, as alternativas oferecidas diante um cenário específico, entre centenas de outras possibilidades. Cada um dos itens pode influenciar a forma como os eleitores respondem. Por isso, o questionário é parte fundamental da pesquisa.

Conhecer apenas o percentual final sem conhecer as perguntas, deixa o cidadão sem uma parte importante da informação.

Na próxima matéria vamos explorar os dados que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exige, a influência dos contratantes e pagantes das pesquisas, a atenção dos eleitores ao se deparar com os resultados e não serem induzidos nas suas escolhas.

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