Longevidade altera projetos de imóveis de alto padrão
Portas mais largas, banheiros sem degraus e ambientes flexíveis passam a nascer no projeto, com foco em quem quer permanecer no mesmo endereço por décadas
O brasileiro está vivendo mais, e isso começa a mudar a forma como os imóveis de alto padrão são projetados. Portas mais largas, banheiros sem degraus, plantas flexíveis e proximidade de serviços de saúde deixam de ser adaptações feitas às pressas e passam a nascer no projeto. A lógica é simples: quem compra um imóvel hoje quer que ele continue confortável daqui a 20 ou 30 anos.
O pano de fundo é demográfico. Segundo a PNAD Contínua 2025, divulgada pelo IBGE em abril de 2026, as pessoas com 60 anos ou mais já são 16,6% da população brasileira, em comparação com 11,3% em 2012. O Sul está entre as regiões mais envelhecidas, registrando 18,1% dos moradores têm 60 anos ou mais. A tendência deve se acelerar. As projeções populacionais do IBGE indicam que essa fatia pode chegar a cerca de 37,8% em 2070, quando a expectativa de vida ao nascer deve alcançar 83,9 anos.
Por que a longevidade entrou no projeto?
Viver mais significa passar mais tempo dentro de casa, e por mais anos no mesmo endereço. As Tábuas de Mortalidade do IBGE, divulgadas em novembro de 2025, mostram que a expectativa de vida no país chegou a 76,6 anos, e quem completa 80 anos ainda tem, em média, mais 9,5 anos pela frente no caso das mulheres e 8,3 no dos homens.
O perfil de quem mora também mudou. O mesmo estudo mostra que, entre as mulheres que vivem sozinhas, 56,5% têm 60 anos ou mais. Para esse público, autonomia e segurança dentro de casa pesam na escolha do imóvel. “O comprador de alto padrão já não pensa só no agora. Ele se pergunta se vai conseguir morar ali com conforto quando tiver 70, 80 anos, ou se aquele imóvel vai obrigá-lo a se mudar. Um projeto que responde a essa pergunta vale mais”, afirma Leonardo Stollmeier, sócio da Tauf Empreendimentos, incorporadora com atuação no litoral norte de Santa Catarina.
O que muda na prática?
A diferença está em decisões tomadas ainda na planta. “Prever uma porta mais larga ou um reforço na parede do banheiro custa pouco durante a obra. Fazer isso depois exige quebra-quebra, poeira e meses de reforma”, explica Matheus Tafner, também sócio da incorporadora. Entre essas decisões estão:
– Portas e corredores mais largos, que permitem a circulação com cadeira de rodas ou andador sem obras;
– Banheiros com box no nível do piso e paredes preparadas para receber barras de apoio quando necessário;
– Pisos antiderrapantes e iluminação que ajuda a evitar quedas, sobretudo à noite;
– Plantas flexíveis, com um ambiente que pode virar suíte, escritório ou quarto para um cuidador;
– Acesso por elevador a todas as áreas, sem degraus no caminho;
– Localização próxima de serviços de saúde, comércio e áreas para caminhar.
Imóvel acessível precisa parecer imóvel de idoso?
Não, e esse é o principal ponto de virada. O conceito de desenho universal prevê espaços que funcionam para qualquer idade, sem cara de adaptação. “Ninguém quer uma casa com aparência de clínica. A acessibilidade bem resolvida não aparece. O morador só percebe que tudo é fácil de usar, hoje e daqui a 30 anos”, diz Leonardo Stollmeier, sócio da Tauf.
Para Stollmeier, a mudança também atende a outras fases da vida. “Uma porta larga serve tanto para o carrinho de bebê quanto para a cadeira de rodas. Quando o projeto pensa na longevidade, ele acaba sendo melhor para a família inteira, e isso protege o valor do imóvel”, afirma.
Com mais anos de vida ativa pela frente, a tendência é que esses critérios deixem de ser diferencial e passem a ser exigência de quem compra no alto padrão. Para Leonardo, a mudança é de mentalidade. “Antes, o comprador escolhia o imóvel para a fase em que estava. Hoje, ele quer um lugar que acompanhe todas as fases que ainda vêm pela frente”, afirma.


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